Lembram do Collor de Mello? Ah, nessa epoca eu trabalhava como vendedor de caixilhos (porta e janelas e batentes) de madeira, a empresa quebrou no plano do presidente, e eu perdi a minha maior venda. JAZZ, no sentido musical. O que eu posso dizer do John Coltrane? Miles Davis, Thelonius. Eu gosto.
Já estamos nos anos 90 e, da marcenaria, pulei para o ramo de antiguidades e usados. Comprava barato e vendia na loja. Comprava das pessoas, uma loucura. O negócio cresceu e virou um galpão na Turiassú, próximo ao campo do Verdão.
Bairro do Pacaembu
Conheci minha mulher, a atriz, poeta e produtora Eloisa Elena, que percebeu minha angústia e, um dia, nas nossas caminhadas pela Zona Oeste de São Paulo, vendo uma placa “dá-se aulas de violão”, indagou se eu não devia estudar música com toda essa paixão.
João Gilberto e seu amoroso já estavam introjetados nas minhas células quando eu percebi que aquele professor de violão não ia me levar a lugar nenhum.
Vale lembrar que eu morava no prédio da Dona Yvone Bacila Haddad. E lá moravam também a cantora Ná Ozzetti e o pianista Benjamim Taubkin. Portanto, eu ouvia muita música e ficava viajando.
Talvez seja aqui, amigo(a) internauta, que começa a minha biografia como músico.
Vendi a loja e fui para a Bahia pensar no assunto. Lá, na chapada Diamantina, fui cortar cana e seccionei um tendão do mindinho. Micou a viagem, e voltei para Sampa para costurar o dedo. Aí também começa a trajetória da minha mão (vide a capa do cd 5 de Dr Morris).
Chapada Diamantina
Durante a cirurgia, meio sedado, o médico perguntou o que fazia profissionalmente? Disse que havia fechado a loja e estava buscando. Foi nessa hora que o sujeito questionou-me sobre o que iria fazer e eu disse que faria como o Gilberto Gil.
Tocava um violãozinho 3 acordes (dá pra fazer um planeta com eles) e toda a minha recuperação foi tocando.
Nesse período, comecei a fazer viagens, a primeira foi para o Uruguai e Argentina com o grupo de jovens sionistas do qual eu fazia parte. Conheci judeus muito diferentes. Ateus, seculares, cabeludos… pois é, o cabelo crescia. Lá eles ouviam os Piedras Rolantes e não os Rolling Stones.
Ainda tentei fazer a PUC, administração de empresas, caos. E cadê o violão?
Depois fui para um Kibutz em Israel. Fui para ficar um ano, fiquei dois meses. Londres, Amsterdã, Berlim Ocidental, Praga, Viena, Belgrado, Macedônia, Grécia, Creta, Israel, Egito, Espanha, Ilhas Canárias, São Paulo, Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia. Nessa época já discotecava com meus vinis de reggae e salsa.
Infelizmente, nessa época achava que fotografar era desnecessário, portanto quase não tenho registros. De qualquer forma:
Foi num reveillon na Ilha do Cardoso, litoral sul do estado de São Paulo (fotinho do Egberto) que eu conheci vários atores, músicos e bailarinos. Ali, eu vi que havia um espaço para mim nessa encarnação.
Ouvíamos, na casa da Lu Favoretto, o Bora-Bora dos Paralamas e Manuel do Ed Motta.
1981 – Maioridade religiosa. Bar-Mitzvá, ritual judaico em que o jovem, aos 13 anos, passa a responder como um adulto, participando da liturgia. Nessa época, quis virar rabino. Meu pai, sabiamente – pelo menos para o meu currículo –, impediu a investida. Daí, achei melhor olhar para o outro lado. Ia levar quase dez anos até vislumbrar o universo para além da ponte.
Em 1983, Juju, meu irmão, trouxe um cassete do Milton Nascimento, Sentinela, “precisa amar sua amiga, ei irmão…”. As paredes do apartamento no Guarujá aumentavam o eco. Ouvindo esse tema hoje, soa tão católico. Mas sei exatamente como essa música entrava na minha alma e quando pinta algo parecido… massa.
Agora já havia aparelho de som em casa. Discos do Rolling Stones, Egberto Gismonti, Simone, Elis Regina. Gostava, mas não pirava tanto. Aos 14 anos peguei uma hepatite e, como prêmio de consolação, o Kenwood do quarto do Alberto foi transferido para o meu aposento. O Kachas, meu primo, fanático por sons, mandou uma fita do Marley “there is a natural mystic…”. Ouvia dia e noite enquanto lia qualquer livro que caísse na minha mão.
Já ouviram falar em filho do meio. Pois é. Sou um desses. Os mais velhos demandando preocupações, a caçula nhe-nhe-nhé, e eu lembro de estar sozinho na sala brincando com qualquer coisa, alheio a tudo e todos.
Por volta de 1978, apareceu uma fita cassete do expresso 2222, do Gil. Na minha casa, o único lugar possível de ouvir música, além da televisão, era no Opala bege do Sr. Sasson. Descíamos na garagem e ouvíamos: “se oriente rapaz…”. Aquilo era muito diferente do meu ambiente, ao mesmo tempo o canto árabe do Gil. Nunca esqueci.
1960 – O encontro desses imigrantes, no Fasano da Av. Paulista, aqui em São Paulo, deu em casório. Daí, foram nascendo Alberto, José, eu e a Sandra. O que eu me lembro de música dessa época é Dalida, Parole, parole…
CIP - Sampa - 1964
Em 1968, maio, o mês do agito, no dia 24, nasci. Foi legal. Acho que grudou em mim alguma coisa daquele desejo de mudança. Deu no que é.
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(leia ouvindo a trilha)
Casam-se, numa importante cidade do império Otomano, Salha Dayan e Abramo Picciotto. Este, um italiano do mercado financeiro; ela uma síria descendente de indianos, de educação refinada para as moças daquela época naquele lugar. Judeus árabes em 1928, mesmo ano da publicação de Macunaíma, por Mário de Andrade, e do nascimento de Serge Gainsbourg na França, nasce o sonoro e sorridente Sasson, meu pai.
1940 – Alepo – Síria
Casam-se Rosa Cobenni e Abraham Nehmad. Dela, não sei muita coisa, a não ser que foi a maior cozinheira que conheci. Ele era filho de um magnata da época, que foi perdendo tudo em seu caminho para o Brasil. Deles nasce, em Beirute, em 1941, minha mãe, Gina. Sem meias palavras, carinhosamente objetiva, sempre.
Até onde sei, a música, para eles, era aquela primitiva, da liturgia judaica, ou as animadas e meladas e melismáticas canções árabes que animavam os Bar-Mitzvás, casamentos e afins.
fotos dos avós